Pular para o conteúdo principal

Marina Silva errou em momentos cruciais

Telma Monteiro

Quando lançaram o "Movimento Marina Presidente” aderi de imediato. Marina Silva seria a peça que falta no jogo político a favor do meio ambiente. Fiel à posição assumida de impulso ou ao meu subconsciente que anseia colocar na pauta governista a questão ambiental, assisti ao ato da sua filiação ao Partido Verde. Partido ao qual um dia me filiei e com o qual não tenho mais quase nenhuma, ou melhor, nenhuma afinidade.

As frustrações dos movimentos sociais e dos ambientalistas no governo Lula decorreram, principalmente, das indecisões ou fraquezas de Marina. Ela nos deixou entregues aos leões quando conduziu o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e nos levou ao desespero quando entregou o futuro da Amazônia ao autoritarismo de Dilma Rousseff, mãe do PAC. Para mim, Marina Silva simplesmente desistiu quando deixou o ministério.

E com isso, infelizmente, acabamos nas mãos de Carlos Minc, um ônus que Marina legou para os que acreditavam, ingenuamente, ser possível tratar de desenvolvimento sustentável no governo de Lula. Marina errou em momentos cruciais das nossas lutas ambientais, como quando se dobrou ao lobby dos transgênicos ou quando foi enganada sobre as usinas do Madeira ao acreditar na fábula dos impactos menores meramente pela adoção das famigeradas turbinas bulbo, para citar apenas dois. Em ambos os casos ela e assessores ignoraram as provas produzidas pela sociedade civil e ficaram reféns de um modelo de desenvolvimento perverso instrumentalizado com obras faraônicas.

O PV, de Gabeira a Zequinha Sarney, está nitidamente eufórico em assumir a responsabilidade de receber a Marina presidenciável e vive seus quinze minutos de glória ao resvalar para a história como receptáculo de um mito. Mas o partido ainda não tem estofo para receber a bagagem ética de Chico Mendes.

Marina sonha com a utopia de ajudar a reconstruir o conteúdo programático do PV coagida pelo desafio e pela fé que parece ter por alguns dos seus integrantes. Será difícil reconstruir aquilo que não existe e, nesse caso, a palavra certa seria construir, mas considerado o grau de ingenuidade da senadora podemos esperar apenas um esforço inicial do partido com foco na sustentabilidade e não a construção real de um conteúdo definitivo.

Marina, ministra, cercou-se de assessores que agora a seguiram para o PV, o que eufemisticamente acabou rendendo filiações a um partido desacreditado que se distanciou completamente do seu inspirador europeu. Digo inspirador porque na verdade só usa o mesmo nome evitando acompanhar sua trajetória e seriedade. O Partido Verde brasileiro de hoje, que assumiu Marina, ou melhor, assumido por ela, não tem pedigree, não tem sustância e não tem identidade. Fragmentado pelo Brasil em miríades de alianças questionáveis e dissociado da causa que deveria defender, o grupo dos verdes é um anátema que ambiciona abrigar o mito.

Triste, pois, que, com a Marina e seu discurso emocionante, chegaram também os mesmos já omissos integrantes do seu staff no MMA e causadores de males que um dia a história cobrará. Sob a égide da Marina, moldada por Chico Mendes, assessores facilitaram o caminho para o licenciamento ambiental de empreendimentos que amargarão a vida de gerações futuras, cujos direitos, professa agora a senadora, deveriam ter sido garantidos.

A boa chance vislumbrada pelo Partido Verde de chegar à presidência com Marina, poderá, se mal administrada, catapultar interesses imediatistas que condenarão ecossistemas e povos tradicionais, os mais fragilizados, à derradeira destruição. Marina, ingênua e crédula, mas sonhadora e ética, terá que ter a autoridade, a firmeza e a coragem necessárias para, se eleita presidente, resgatar a oportunidade que deixou passar como ministra. Por sua vez, o Partido Verde tentará, com ela, renascer das cinzas do meio ambiente que nunca defendeu. (TM)

Comentários

  1. Telma, compreendo e compartilho suas angústias e decepções! No entanto, não nos resta nenhum partido político que nos abrigue, defensores da Ética, do Verde e da Dignidade. Os debates no Parlamento nos ofendem, as disputas políticas nos humilham! Não há políticos que se salvem no Brasil... por isso, eu que já fui do Partidão, que oPTei um dia, agora ingresso no PV, não porque ele represente minha ideologia, mas porque preciso de um espaço para me manifestar, uma arena onde degladiar com o poder, uma bandeira para conduzir em minha luta. Acredito que poderemos nos reunir sob esse PV que não nos representa e tentar tomá-lo de assalto, convertendo-o no PV que desejamos... Abraços, João Carlos

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Hidrelétrica Jirau, no rio Madeira, o desastre confirmado

UHE Santo Antônio (ainda em construção) e ao fundo a cidade de Porto Velho O "X" vermelho é para encobrir a propaganda mentirosa do consórcio que diz "Desenvolvimento sustentável para Rondônia e para o Brasil" A cidade de Porto Velho, a capital do estado de Rondônia, nunca esteve tão ameaçada pelas cheias do rio Madeira. Ensecadeira (barragens provisórias) e outras estruturas em construção na UHE Jirau poderão se romper se não houver um controle do nível do reservatório da hidrelétrica Santo Antônio. (Atualizado em 04/03/2014) Telma Monteiro Resgatando um pouco da história das usinas do Madeira O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado de Rondônia ajuizaram uma Ação Civil Pública (ACP) com pedido liminar contra a mudança de localização da usina de Jirau, no rio Madeira. Isso aconteceu em 25 de agosto de 2008.  A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováve...

Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais

Volta à Minas colonial  Assista ao vídeo Conceição II sobre como a Mineração Anglo Ferrous Brazil, da Anglo American, trata as comunidades tradicionais de Minas Gerais. Assista ao filme Ouro de Sangue  mostra os descalabros da mineração de ouro a céu aberto em Paracatu, cidade bem próxima do Distrito Federal, formada durante a corrida do ouro da época colonial, no Oeste de Minas.

Rio Tapajós: derradeiro peão no tabuleiro de xadrez da Amazônia

Telma Monteiro No final de 2011, como resolução de ano novo, eu prometi a mim mesma que deixaria o ativismo socioambiental. Que fique claro que esta não seria a primeira vez a me impor tal determinação. Achei, no entanto, que seria a última e que resistiria bravamente às provocações e apelos das notícias que envolvem os desmandos do setor elétrico contra os povos e rios da Amazônia. Contra a vida, enfim. Foi em vão. Mesmo desestimulada pelos rumos tomados pelos enfrentamentos socioambientais, dei-me outra chance ao escrever mais este texto. Talvez eu não tenha completado meu carma ou não tenha esgotado meus argumentos para provar as ilegalidades dos processos de licenciamento de grandes obras. Ou talvez eu ainda acredite que temos chances de reverter este modelo de desenvolvimento ultrapassado e predatório que estão impondo ao Brasil. Sinceramente, não sei. É um comichão danado quando me deparo com fatos e decisões de autoridades ou empresas que subestimam a inteligênci...