Pular para o conteúdo principal

Bancos desistem de projetos do Madeira


Crise financeira e riscos ambientais afetam apetite dos bancos em financiar as mega-hidrelétricas de R$ 21 bilhões

Santander e Banif enfrentam dificuldade em capitalizar fundo para Santo Antônio; Itaú já desistiu de Jirau e Santo Antônio

JULIO WIZIACK
AGNALDO BRITO
DA REPORTAGEM LOCAL

Os bancos estão revendo a decisão de financiar a construção das duas usinas do rio Madeira (Jirau e Santo Antônio), duas das mais importante obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Isso ocorre devido ao agravamento da crise financeira, que fez secar as fontes de recursos, e os riscos ambientais. Juntos, os projetos disputam, num dos piores momentos do mercado financeiro, o mesmo grupo de fontes para financiar R$ 21 bilhões, custo total das usinas.
O Santander e o Banif são sócios do consórcio vencedor da licitação para a usina de Santo Antônio. No grupo vencedor do leilão de Jirau, não há bancos entre os sócios, mas o Banco do Brasil lidera os financiadores.
Para erguer Santo Antônio, distante 7 km de Porto Velho (RO), Santander e Banif, que detêm 20% de participação do consórcio, decidiram formar um FIP (Fundo de Investimento de Participação).
Segundo Cássio Schmitt, executivo do Santander responsável pelo projeto, os bancos preparam sua saída do consórcio. "O fundo foi formado com esse objetivo", diz. "Queremos apenas prestar serviço como gestores."
Para isso, eles terão de vender cerca de R$ 500 milhões em cotas. Ainda segundo Schmitt, sete bancos, fundos de investimento e de pensão foram convidados a participar, mas nenhum fechou negócio até agora. Caso as vendas do FIP não se realizem, Santander e Banif continuam como "sócios" com obrigações de aportar recursos.
A Folha apurou que o Itaú foi convidado e negou a participação. O presidente do banco, Roberto Setúbal, foi procurado por representantes do consórcio para que mudasse sua decisão. Não mudou. O temor era o de que sua decisão afugentasse outros interessados.
Procurado, o Itaú não quis se pronunciar. O Ministério de Minas e Energia, a Casa Civil e o Ministério da Fazenda não ligaram de volta até o fechamento desta edição.
O próprio BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento), que prometeu financiar até 70% das obras de Santo Antônio, anunciou aporte de 60%. A reportagem apurou ainda que metade desses 60% será repassada por um grupo de bancos. Embora o dinheiro tenha origem no BNDES, a instituição quer diluir o risco da operação com o grupo.
A usina de Jirau, que fica a 136 km de Porto Velho (RO), é outro ponto de incertezas. Deslocada 9,2 km de seu local original, após o licenciamento ambiental, o projeto é contestado por várias ações judiciais.
Segundo Rogério Magno Panca, gerente-executivo de operações estruturadas do Banco do Brasil, nenhum contrato será assinado antes que uma consultoria independente avalie os riscos à luz dos "Princípios do Equador", um conjunto de regras definidas pelo Banco Mundial que norteiam a concessão de créditos.
Por essas normas, os signatários não podem financiar obras que ofereçam riscos ambientais ou afetem a vida de moradores locais, a menos que sejam feitas as adequações necessárias para mitigá-los. Signatário, o Banco do Brasil afirma que os questionamentos judiciais sobre os projetos terão de "ser equacionados" para a confirmação da operação.
A Folha apurou que o Itaú também negou o convite para participar de Jirau. O Santander é outro que decidiu ficar fora, de acordo com a ata de uma reunião ocorrida com a diretoria do banco, na Espanha, há cerca de um mês. No documento, estão expressos os riscos socioambientais decorrentes da mudança de local da usina.
Schmitt afirma que a proposta do Santander, enviada ao consórcio de Jirau, não foi competitiva em relação aos demais concorrentes e, por isso, as negociações ficaram congeladas.
O licenciamento das usinas é contestado pelo MPF (Ministério Público Federal). Não por acaso, os bancos Bradesco, Santander e Unibanco decidiram contratar uma consultoria independente, a ERM, para avaliar o projeto no que se refere aos Princípios do Equador. "Sem esse resultado, eles não avançarão", afirma Rubens de Oliveira Júnior, sócio da consultoria no Brasil.
A ERM avalia se o projeto da usina como está hoje se enquadra pelos Princípios. Pelos trâmites, se o consórcio responsável pelas obras não quiser fazer os ajustes, os bancos signatários dos Princípios não poderão participar. O estudo fica pronto no primeiro trimestre de 2009. "Estamos ainda na fase inicial", diz Oliveira Júnior. Bradesco e Unibanco recusaram-se a comentar o assunto.
Embora não seja signatário dos Princípios, o Santander decidiu implementá-los e está sendo assessorado pela equipe de risco ambiental do Real. Folha de S. Paulo

Leia também sobre esse assunto já antecipado neste blog:

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais

Volta à Minas colonial  Assista ao vídeo Conceição II sobre como a Mineração Anglo Ferrous Brazil, da Anglo American, trata as comunidades tradicionais de Minas Gerais. Assista ao filme Ouro de Sangue  mostra os descalabros da mineração de ouro a céu aberto em Paracatu, cidade bem próxima do Distrito Federal, formada durante a corrida do ouro da época colonial, no Oeste de Minas.

Rio Tapajós: derradeiro peão no tabuleiro de xadrez da Amazônia

Telma Monteiro No final de 2011, como resolução de ano novo, eu prometi a mim mesma que deixaria o ativismo socioambiental. Que fique claro que esta não seria a primeira vez a me impor tal determinação. Achei, no entanto, que seria a última e que resistiria bravamente às provocações e apelos das notícias que envolvem os desmandos do setor elétrico contra os povos e rios da Amazônia. Contra a vida, enfim. Foi em vão. Mesmo desestimulada pelos rumos tomados pelos enfrentamentos socioambientais, dei-me outra chance ao escrever mais este texto. Talvez eu não tenha completado meu carma ou não tenha esgotado meus argumentos para provar as ilegalidades dos processos de licenciamento de grandes obras. Ou talvez eu ainda acredite que temos chances de reverter este modelo de desenvolvimento ultrapassado e predatório que estão impondo ao Brasil. Sinceramente, não sei. É um comichão danado quando me deparo com fatos e decisões de autoridades ou empresas que subestimam a inteligênci...

Hidrelétrica Jirau, no rio Madeira, o desastre confirmado

UHE Santo Antônio (ainda em construção) e ao fundo a cidade de Porto Velho O "X" vermelho é para encobrir a propaganda mentirosa do consórcio que diz "Desenvolvimento sustentável para Rondônia e para o Brasil" A cidade de Porto Velho, a capital do estado de Rondônia, nunca esteve tão ameaçada pelas cheias do rio Madeira. Ensecadeira (barragens provisórias) e outras estruturas em construção na UHE Jirau poderão se romper se não houver um controle do nível do reservatório da hidrelétrica Santo Antônio. (Atualizado em 04/03/2014) Telma Monteiro Resgatando um pouco da história das usinas do Madeira O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado de Rondônia ajuizaram uma Ação Civil Pública (ACP) com pedido liminar contra a mudança de localização da usina de Jirau, no rio Madeira. Isso aconteceu em 25 de agosto de 2008.  A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováve...