Pular para o conteúdo principal

Assombrados pelo passado: Hidrelétrica Binacional no rio Madeira, na divisa Brasil-Bolívia em Guajará-Mirim


  

 Município de Guajará-Mirim (contorno em azul), separado da Bolívia pelo rio Madeira. Áreas em rosa são Terras Indígenas que serão afetadas pela Binacional. O ponto vermelho é a sede do município e a região onde se prevê a construção da usina hidrelétrica Binacional Brasil-Bolívia no rio Madeira.

Terras Indígenas no mapa no Município de Guajará-Mirim que serão impactadas: 

  1. Pacaas Novas, Situação Regularizada, Área (ha)279.906,38, Restrição Restrição Total; 
  2. Rio Negro Ocaia, Situação Declarada, (ha) 235.070,00, Restrição Total
  3. Uru-Eu-Wau-Wau, Situação Regularizada, Área (ha)1.867.117,80, Restrição Restrição Total

 Eventos em Belém (PA) podem encobrir a discussão sobre um novo projeto hidrelétrico na Amazônia: hidrelétrica binacional – Brasil – Bolívia, no rio Madeira. Organizações da Sociedade Civil denunciam.

 Telma Monteiro        

Entre os dias 04 e 06 de agosto acontecerá, em Belém (PA), os Diálogos Amazônicos, evento criado pela Secretaria da Presidência da República e, em seguida, nos dias 08 e 09 de agosto, os oito chefes de Estado dos países amazônicos deverão discutir o futuro da Amazônia, na Cúpula da Amazônia, e formar entendimentos para a COP 28. No entanto, esses eventos podem servir, também, para disfarçar uma discussão que acontecerá no dia 08 de agosto, em Guajará Mirim, (RO), para apresentar a alguns poucos convidados o novo projeto de destruição da Amazônia: a construção de uma hidrelétrica binacional – Brasil-Bolívia – no rio Madeira.

A história da Hidrelétrica binacional no rio Madeira

No primeiro mandato do governo Lula, a sociedade civil, pesquisadores, ministério público e ambientalistas tiveram que enfrentar a sanha de projetos de infraestrutura na Amazônia, em especial as usinas do rio Madeira: Santo Antônio e Jirau. Já, em 2006, estavam previstas as duas hidrelétricas no Brasil e uma binacional na divisa com a Bolívia. Em 2009, no segundo mandato de Lula, uma delegação representando a Bolívia e o Brasil foi a Washington para denunciar no Comitê de Direitos Humanos da OEA os impactos que o represamento do rio Madeira provocariam em terras ribeirinhas bolivianas e brasileiras.  Impactos que hoje se refletem na reprodução dos peixes, na inundação a montante causada pelo lago da hidrelétrica de Jirau em solo boliviano, nas terras indígenas, nos grupos de índios isolados e nas populações ribeirinhas.

Em 2007, um memorando de entendimento foi assinado pelo Ministério de Minas e Energia do Brasil e pelo Ministério de Hidrocarbonetos e Energia da República da Bolívia, para realização dos “Estudos de Inventário da Bacia Hidrográfica do rio Madeira no trecho binacional Brasil – Bolívia. Esse memorando deu origem a um outro protocolo adicional, assinado em julho de 2015, pelos dois países, para a retomada dos estudos.

Entre os dias 10 e 11 de junho passado aconteceu a VI Reunião do Comitê Técnico Binacional Brasil-Bolívia para dar continuidade ao projeto de integração e complementação energética entre os dois países e o projeto da hidrelétrica binacional. A Eletrobras, então, retomou as tratativas para a construção da Hidrelétrica Binacional no rio Madeira, com aval do governo brasileiro, em conjunto com a Empresa Nacional de Electricidad Bolivia (ENDE) e Banco de Desarrollo de América Latina (CAF), e estudos da Worley Parsons Engenharia Ltda., previstos para serem concluídos ainda em julho de 2023.

A região da bacia do Madeira já conta com um enorme passivo ambiental resultante dos impactos das duas outras hidrelétricas já construídas, Santo Antônio e Jirau. O Secretário Nacional de Transição e Planejamento, do Ministério de Minas e Energia, em parceria com a Eletrobras e a ENDE boliviana, então, elaboraram um Seminário Público, em Guajará-Mirim, Rondônia, no próximo dia 08 de agosto. Esse seminário pretende apresentar os resultados dos Estudos de Inventário Hidrelétrico Binacional no rio Madeira e seus afluentes, nos dois países, e acontecerá justamente durante a Cúpula da Amazônia.

As organizações da sociedade civil elaboraram uma carta dirigida aos presidentes do Brasil e da Bolívia em que denunciam a “coincidência” da reunião para apresentar os novos estudos da binacional, em Guajará-Mirim, Rondônia, na mesma ocasião em que as comunidades a serem afetadas estarão nos eventos de Belém, no Pará.  A carta também denuncia o avanço de mais projetos de barragens na bacia do rio Madeira. Se construída, a hidrelétrica binacional deverá atingir os territórios do Brasil e da Bolívia, novamente, e acumular mais impactos nos territórios do rio Madeira já afetados duramente pelas hidrelétricas Santo Antônio e Jirau.

Link para você assinar a carta das organizações contra a usina hidrelétrica binacional no rio Madeira:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSez4dIjAKlx_uPzaHijCyVux5nLXF5piGOiuPOWfjU-X-wsRQ/viewform?usp=sf_link

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Hidrelétrica Jirau, no rio Madeira, o desastre confirmado

UHE Santo Antônio (ainda em construção) e ao fundo a cidade de Porto Velho O "X" vermelho é para encobrir a propaganda mentirosa do consórcio que diz "Desenvolvimento sustentável para Rondônia e para o Brasil" A cidade de Porto Velho, a capital do estado de Rondônia, nunca esteve tão ameaçada pelas cheias do rio Madeira. Ensecadeira (barragens provisórias) e outras estruturas em construção na UHE Jirau poderão se romper se não houver um controle do nível do reservatório da hidrelétrica Santo Antônio. (Atualizado em 04/03/2014) Telma Monteiro Resgatando um pouco da história das usinas do Madeira O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado de Rondônia ajuizaram uma Ação Civil Pública (ACP) com pedido liminar contra a mudança de localização da usina de Jirau, no rio Madeira. Isso aconteceu em 25 de agosto de 2008.  A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováve...

Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais

Volta à Minas colonial  Assista ao vídeo Conceição II sobre como a Mineração Anglo Ferrous Brazil, da Anglo American, trata as comunidades tradicionais de Minas Gerais. Assista ao filme Ouro de Sangue  mostra os descalabros da mineração de ouro a céu aberto em Paracatu, cidade bem próxima do Distrito Federal, formada durante a corrida do ouro da época colonial, no Oeste de Minas.

Rio Tapajós: derradeiro peão no tabuleiro de xadrez da Amazônia

Telma Monteiro No final de 2011, como resolução de ano novo, eu prometi a mim mesma que deixaria o ativismo socioambiental. Que fique claro que esta não seria a primeira vez a me impor tal determinação. Achei, no entanto, que seria a última e que resistiria bravamente às provocações e apelos das notícias que envolvem os desmandos do setor elétrico contra os povos e rios da Amazônia. Contra a vida, enfim. Foi em vão. Mesmo desestimulada pelos rumos tomados pelos enfrentamentos socioambientais, dei-me outra chance ao escrever mais este texto. Talvez eu não tenha completado meu carma ou não tenha esgotado meus argumentos para provar as ilegalidades dos processos de licenciamento de grandes obras. Ou talvez eu ainda acredite que temos chances de reverter este modelo de desenvolvimento ultrapassado e predatório que estão impondo ao Brasil. Sinceramente, não sei. É um comichão danado quando me deparo com fatos e decisões de autoridades ou empresas que subestimam a inteligênci...