Pular para o conteúdo principal

Licenças para hidrelétricas abrem discussões

Organizações ambientais se mobilizam contra licenciamento das barragens de Santo Antônio e Jirau (RO)

Banco de Imagem

Por Letícia Veloso
leticiasveloso@gmail.com


Recentemente, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou o funcionamento da hidrelétrica de Jirau. A medida foi viabilizada através de consórcio com a prefeitura de Porto Velho e o governo de Rondônia, e prevê verbas de R$ 69 milhões para o município, num total de R$90 milhões para o estado.A Hidrelétrica de Jirau terá uma potência de 3,3 mil megawatts (MW), com energia 1,9 mil MW médios, suficientes para abastecer quase 10 milhões de casas, o custo total da obra está orçado em R$ 9 bilhões.

No final de junho, as Organizações Amigos da Terra - Amazônia Brasileira (SP), a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé (RO) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) pediram à Justiça Federal a anulação das licenças de funcionamento para as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. De acordo com as entidades, há irregularidades nos processos de licenciamento. Uma das contestações alegadas é a autorização concedida sem que a FUNAI(Fundação Nacional do Índio) obtivesse informações precisas sobre indígenas isolados nas áreas utilizadas no empreendimento.

“O governo precisa rever o conceito de desenvolvimento econômico”, afirma Telma Monteiro, coordenadora Associação de Defesa Etno-Ambiental Kanindé. Para ela, o Governo Federal ignora os aspectos negativos em relação às obras na região do rio Madeira. Em entrevista concedida ao O Estado RJ, Telma Monteiro fala sobre os impactos ambientais, Unidades de Conservação na região amazônica, o PAC e a política adotada pelo ministro do Meio Ambiente Carlos Minc em relação às licenças ambientais

O Estado RJ - Quais seriam os impactos negativos, referentes ao licenciamento ambiental para hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau?

Telma Monteiro
: No caso de Jirau e Santo Antônio, a falta de definição dos limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente afetada pelos impactos, denominada área de influência do projeto, considerando a bacia hidrográfica onde se localizam, é um dos principais. Essa indefinição acaba por colocar em risco UCs (Unidades de Conservação) e Terras Indígenas, além das populações do entorno e criar interferências em território boliviano.Outro impacto importante, este para Jirau, é a questão de terem alterado a localização do empreendimento, após a emissão da licença prévia, sem submetê-lo a novo processo, o que significa desconsiderar todo o preceito e base que sustentam o Ibama, além de abrir perigoso precedente para que outros empreendimentos sejam licitados e, posteriormente, tenham seu local alterado. O caráter preventivo (princípio da prevenção/precaução) do processo de licenciamento foi absolutamente ignorado, nesse caso, quando se observa que a pretensa “viabilidade ambiental” da usina de Jirau foi fundamentada nos estudos constantes no Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) que considerou a localização original.

OERJ - Como conciliar corretamente o licenciamento adequado às questões sustentáveis que envolvem as comunidades locais e o meio ambiente?

TM
: De acordo com o art. 5º da Resolução nº 001/86 do CONAMA(Conselho Nacional do Meio Ambiente), o Estudo de Impacto Ambiental deve contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização de projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do projeto. Todo o processo de análise dos estudos, pelo Ibama, para o licenciamento ambiental do Complexo do Madeira, das usinas Santo Antônio e Jirau, foi marcado por pareceres técnicos tanto do próprio instituto como de especialistas independentes, que apontaram as inconsistências e os graves riscos que os barramentos trariam à região.

OERJ- O projeto constitui-se completamente inviável?

TM:
Nesse caso específico que envolve um rio de planície como o rio Madeira, um dos maiores do mundo em transporte de sedimentos, principal artéria em bacia hidrográfica de uma complexidade ímpar, no meio da Amazônia, cercado de UCs, Terras Indígenas e populações ribeirinhas, não é possível sequer pensar em licenciar obras dessa magnitude. Há que se acolher aí, não uma hipótese, mas a certeza da não execução dos projetos.Todo o processo que culminou com os pareceres dos técnicos do Ibama que concluíram pela não viabilidade ambiental e que recomendaram a não emissão das duas licenças de instalação – das duas usinas(Santo Antônio e Jirau) apontaram a incompatibilidade dos empreendimentos com o meio ambiente afetado, cujos impactos foram diagnosticados na fase de análise do EIA/RIMA.

OERJ -Qual sua opinião a respeito das concessões de licenciamento adotadas pelo Ministério do Meio Ambiente?

TM:
Carlos Minc afirmou várias vezes nas suas entrevistas que as licenças ambientais já estavam sendo concedidas com celeridade inédita. Erro número um: o tempo necessário para análise de estudos ambientais pelos técnicos do órgão competente é decorrente da complexidade do empreendimento em questão; erro número dois: quando está em análise um empreendimento com sérios indícios de não observância dos pressupostos legais não é próprio de autoridades marcarem “data” para a concessão da licença ambiental como tem acontecido no processo das usinas do Madeira.

O Estado RJ Online - Notícia Postada em 18/07/2009 - 15:17

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Hidrelétrica Jirau, no rio Madeira, o desastre confirmado

UHE Santo Antônio (ainda em construção) e ao fundo a cidade de Porto Velho O "X" vermelho é para encobrir a propaganda mentirosa do consórcio que diz "Desenvolvimento sustentável para Rondônia e para o Brasil" A cidade de Porto Velho, a capital do estado de Rondônia, nunca esteve tão ameaçada pelas cheias do rio Madeira. Ensecadeira (barragens provisórias) e outras estruturas em construção na UHE Jirau poderão se romper se não houver um controle do nível do reservatório da hidrelétrica Santo Antônio. (Atualizado em 04/03/2014) Telma Monteiro Resgatando um pouco da história das usinas do Madeira O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado de Rondônia ajuizaram uma Ação Civil Pública (ACP) com pedido liminar contra a mudança de localização da usina de Jirau, no rio Madeira. Isso aconteceu em 25 de agosto de 2008.  A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováve...

Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais

Volta à Minas colonial  Assista ao vídeo Conceição II sobre como a Mineração Anglo Ferrous Brazil, da Anglo American, trata as comunidades tradicionais de Minas Gerais. Assista ao filme Ouro de Sangue  mostra os descalabros da mineração de ouro a céu aberto em Paracatu, cidade bem próxima do Distrito Federal, formada durante a corrida do ouro da época colonial, no Oeste de Minas.

Rio Tapajós: derradeiro peão no tabuleiro de xadrez da Amazônia

Telma Monteiro No final de 2011, como resolução de ano novo, eu prometi a mim mesma que deixaria o ativismo socioambiental. Que fique claro que esta não seria a primeira vez a me impor tal determinação. Achei, no entanto, que seria a última e que resistiria bravamente às provocações e apelos das notícias que envolvem os desmandos do setor elétrico contra os povos e rios da Amazônia. Contra a vida, enfim. Foi em vão. Mesmo desestimulada pelos rumos tomados pelos enfrentamentos socioambientais, dei-me outra chance ao escrever mais este texto. Talvez eu não tenha completado meu carma ou não tenha esgotado meus argumentos para provar as ilegalidades dos processos de licenciamento de grandes obras. Ou talvez eu ainda acredite que temos chances de reverter este modelo de desenvolvimento ultrapassado e predatório que estão impondo ao Brasil. Sinceramente, não sei. É um comichão danado quando me deparo com fatos e decisões de autoridades ou empresas que subestimam a inteligênci...